Já corri no Gerar várias vezes (e até fiz “coleção” de medalhas), mas continuo a gostar de falar dele como se fosse a primeira. Porque, sinceramente, este formato consegue fazer uma coisa rara: tirar-te do teu filme pessoal e meter-te num “nós” que não existe só no cartaz.
1) A regra que muda tudo
No Gerar, a ideia de “equipa” não é poesia. É regra: são três e têm de ficar juntos, a uma distância curta, o percurso inteiro. O lema “We run as one” não está lá para ficar bonito — está para te avisar: aqui não existe a opção “vemo-nos na meta”.
E a parte boa é que esta regra estraga-te os reflexos clássicos. Não dá para fazer de herói durante dois minutos, porque alguém te põe logo com os pés no chão. Também não dá para fingir que estás bem quando não estás, porque isso aparece imediatamente no “elástico” entre vocês. Se um rebenta, rebenta tudo.
Eu também tenho a minha equipa “com tradição” há vários anos: Inglourious Basterds, com o Gabi e o Bogdan. O nome é mais perigoso do que nós, mas é precisamente essa a piada. Num ano, dissemos as coisas de forma simples: o ritmo foi “de cusquice”, porque estávamos os três em recuperação e não tínhamos cabeça para heroísmos.
2) O ritmo não é teu. E isso é uma lição, não um castigo
Esta é a diferença subtil em relação ao ponto 1: no Gerar, não é só ficares perto — aprendes a negociar o ego. O ritmo não é “quanto eu aguento hoje”, é “quanto nós aguentamos sem pagar juros mais tarde”.
Em 2025 cometi exatamente o erro clássico: dormi o equivalente a uma pausa para café e fui com uma confiança parva na euforia da partida. Nos primeiros minutos ainda deu, depois entrei no modo “não desmaio, mas também não estou a gostar nada disto”, com a respiração toda destruída. O momento bom não foi eu sentir-me mal; foi ter ganho juízo e ter dito para abrandarmos. Não fica espetacular no Strava, mas salva a corrida.
3) É prova, mas também é “sessão de terapia” a correr
Há corridas em que ficas calado e vais a contar quilómetros como quem conta os dias até ao salário. No Gerar, acontece-me muitas vezes o contrário: os quilómetros passam sem eu dar por isso, porque correr vira o pretexto perfeito para veres pessoas e pores a conversa em dia, a sério.
Em 2023, falei quase sem parar — parecia que estávamos numa esplanada com um café comprido… só que o “café” tinha 21 km. E isso é uma das coisas raras: deixa-te ser atleta e pessoa ao mesmo tempo. Podes puxar se te apetecer, mas também podes desfrutar da prova como um encontro com a tua comunidade, sem sentires que “estás a perder” alguma coisa.
4) Podes ir sem objetivo e, mesmo assim, fica completo
Isto é das coisas mais fixes deste formato: não precisas de um target para o dia fazer sentido. Normalmente, numa prova sem objetivo ou te aborreces, ou ficas irritado porque “não tens nada que fazer ali”. No Gerar, se não tens target, encontras outra coisa: o ambiente, as histórias, o ritmo de equipa, o facto de não teres de provar nada.
E é uma boa lição, sobretudo no início do ano: às vezes o objetivo mais saudável é arrancares com vontade, não com um Excel na cabeça.
5) O tempo é cenário. A edição é outro filme
No Gerar, já apanhei neve “de sonho” (daquela que torna tudo mais bonito, inclusive o sofrimento, se for o caso). E já apanhei edições com temperaturas quase de primavera — olhas para o nome e perguntas-te se não é uma piada: “Gerar”… mas tu estás a transpirar como em abril.
E o melhor é que, esteja como estiver lá fora, a prova agarra-te da forma certa. Frio, calor, neve, ausência dela… é fundo. O filme verdadeiro é como vocês se gerem uns aos outros: quando começa a doer, quando está confortável demais e te deixas levar, quando um está num dia pior.
6) A organização é boa demais para ser o tema principal
Em algumas provas, metade das memórias são sobre filas, cruzamentos, nervos, “onde é o percurso?”. No Gerar, a organização é tão correta que acabas sem nada a apontar. Há voluntários onde é preciso, gente a orientar, apoio, fotógrafos, ambiente. Tu corres e fazes o teu.
E conta muito o facto de tudo acontecer na Politehnica. Há aquela sensação de que és “recebido” num evento, e não simplesmente largado num percurso e pronto. Claro que, em 2020, chateou-me o levantamento do kit, mas isso é o tipo de queixa que só tens quando o resto funciona como um relógio.
7) A medalha não é uma medalha. É um projeto de vários anos
No Gerar, a medalha não é aquele objeto que atiras para uma gaveta e pronto, “feito”. Em 2020, descobri que a medalha desse ano, junto com as dos dois anos anteriores, podia ser montada numa pirâmide, com suporte e tudo. Ri-me, mas adorei: em vez de “mais uma”, era uma peça de um puzzle.
Em 2024, de novo: a medalha era a segunda de uma série de 10 que vai formar um grande floco de neve. E é exatamente aí que está a graça: prende-te ao jogo sem motivação de plástico. Simplesmente queres apanhá-las todas, como uma criança séria com uma coleção muito pouco séria.
8) O Gerar também é sobre pessoas que ficam como referência
Em 2024 houve também aquele momento em que a prova deixa de ser só prova. O Nea Ilie Roșu foi o tipo de pessoa que passou pela nossa comunidade como uma locomotiva: muitos maratonas, a bandeira da Roménia e aquele incentivo simples que te apanhava mesmo quando começavas a negociar contigo. Estas pessoas ficam em ti não pelos resultados, mas pela presença.
E há mais: no Gerar, também vês aqueles “modelos” que, sem dizerem nada, te dão aquele pensamento limpo: “quando eu for grande, quero ser assim”. Não é discurso, não é inspiração de cartão. É só a realidade, ali ao teu lado, no fim da prova.
9) É a tradição do início do ano, não apenas uma partida
Para mim, o Gerar é aquele tipo de prova que põe a época nos trilhos. Sinto-o como uma tradição: vês as pessoas, começas o ano, lembraste de como é o ambiente de competição e pões a cabeça no lugar.
E gosto de ser em Bucareste, é “casa” à sua maneira: o campus, a logística simples, as pessoas que já sabem o que é o Gerar e como se vive. Não é só uma partida. É um ritual.
10) Não é para toda a gente. É precisamente por isso que continua autêntico
O formato de equipa de três não é “fofinho”. É um filtro. Se vieste só para “eu, o meu tempo, o meu relógio”, esta regra tira-te do sério. Se vens pela ideia de equipa, a corrida torna-se uma das mais fixes do ano.
E acho que aqui está a essência: no Gerar, o critério real não é a performance, é a pessoa. Ser porreira, aguentar 21 km e perceber que “we run as one” significa mais do que um resultado. É sobre entendimento, apoio e amizade.
Por isso, depois de tantas edições — mais exatamente 7 (2016, 2018, 2019, 2020, 2023, 2024 e 2025) — posso dizer de forma simples: o Gerar não é o tipo de prova que “risca da lista”. É o tipo de prova a que voltas. E mal posso esperar para participar a 31 de janeiro de 2026.
Bónus, para ninguém achar que o Gerar significa só equipa de 21 km: a prova tem outras distâncias, para gente normal, para corajosos, para “hoje quero ver como é”, para crianças, para toda a gente. Tens prova de 10 km e prova de 3 km, portanto não é aquele tipo de evento em que só entras se tiveres um plano de maratona e três amigos prontos a alinhar.
E há ainda um detalhe raro, que aprecio imenso: a hora de partida, 17:00. Não acordas às 4 da manhã, não sais de casa ainda de noite, não gastas os nervos pelo caminho. Podes ir tranquilamente no próprio dia, corres, levas a tua dose de competição e, se quiseres, ainda voltas para casa nessa mesma noite, como uma pessoa responsável (ou pelo menos como alguém que está a tentar).
E sim, vale a pena dizer: o Gerar é organizado pela Facultatea de Energetică e pela Yolo Events, e nota-se por trás a mão de uma equipa que sabe fazer as coisas como deve ser. Com o apoio da SportGuru e de outros parceiros.
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10 verdades sobre o Gerar: se nunca o correste, não há como as adivinhares
Jan 12, 2026
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