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Monopoli: Estive num filme. Um verdadeiro. E, por alguns dias, fui italiano.

Jan 03, 2026 · 10 min read
Monopoli: Estive num filme. Um verdadeiro. E, por alguns dias, fui italiano.
❤️🇮🇹 Estive num filme. Um verdadeiro. E, por alguns dias, fui italiano. Para mim, Monopoli sempre foi aquele tipo de lugar por onde passei muitas vezes, mas onde nunca fiquei de verdade. E há uma diferença enorme entre passar e ficar. Quando ficas, deixa de ser sobre a “cidade” e passa a ser sobre as pessoas. Sobre como te olham sem desconfiança, sobre como falam contigo mesmo que não falem a mesma língua, sobre aquela familiaridade que aparece surpreendentemente depressa nas cidades mais pequenas, sobretudo em épocas em que não estão invadidas de turistas. A comida, claro, faz parte da história. Mas não como espetáculo, não como fotos bonitas para o Instagram. E sim como pretexto. Pretexto para ficar, para conversar, para pedir mais qualquer coisa, para esperar mais um pouco. Em Monopoli, a comida não é “experiência gastronómica”, é vida do dia a dia. Lojas pequenas, mercearias de bairro, cafés onde entras três vezes na mesma manhã e ninguém te olha de lado. A comida é a ponte entre ti e a cidade. Monopoli não é um lugar por onde se passa. É um lugar onde se fica. E talvez por isso eu tenha gostado tanto de Monopoli. Porque não tenta ser nada além do que é. Uma cidade do mar, com porto, com ruelas brancas, com muralhas antigas, com gente a viver a sua vida com calma. E se chegares aqui de estômago aberto e cabeça leve, há grandes hipóteses de saíres com algo mais do que umas fotos. 😍 Chegámos à noite, tarde, depois de um voo atrasado, cansados e sem vontade de nada complicado. Comboio, táxi, bagagens — aquele tipo de chegada em que já não tens energia nem para te entusiasmar, nem para te queixar. Só fome. Daquelas a sério. A Itália, porém, tem esse dom simples e genial: não te faz esperar. Senta-te logo à mesa. Primeira noite. Fome, cansaço e uma refeição que nos pôs de pé A noite em que chegámos não foi sobre passeios, fotos ou descobertas. Foi sobre aquela fome que já não tem paciência. Daquelas de depois da viagem, depois dos nervos, depois do “vamos lá de uma vez”. Entrámos na Trattoria Re Umberto - Panzerotteria Pizzeria, sem expectativas, sem paciência para explicações e sem vontade de impressionar quem quer que fosse. Exatamente o tipo de sítio onde te sentas, pedes e comes. Só isso. E, sinceramente, era exatamente isso que eu queria. O primeiro prato foi polvo grelhado. Simples, limpo, sem estar afogado em molhos ou ideias inúteis. Tenro, com verdadeiro sabor a mar, não a borracha. Daqueles que te fazem calar um pouco e focar-te no que tens à frente. Depois veio aquela comida tradicional, Tiella Barese, com arroz, batatas e mexilhões, aparentemente banal, mas perigosamente boa. Parece que atiraram para a panela tudo o que encontraram em casa. 🤭 Descobri-a no ano passado, no Natal, mais por curiosidade. Na altura não soube dizer se gostava ou não. Este ano comi-a duas vezes e parecia que, de cada vez, era melhor. Agora, à terceira, ficou claro: é aquele tipo de prato que não te conquista à primeira, mas, quando te agarra, já não te larga. A massa com lavagante veio com meia peça no prato, sem obrigações e sem aquele teatro turístico do “tem de ser duas porções”. Aquela metade foi suficiente e honesta. A massa, muito boa, e o molho… o molho era a estrela. Apesar de ser à base de tomate, tinha uma cor mais escura e um sabor profundo, intenso, claramente vindo de tudo o que o lavagante vai libertando enquanto cozinha na frigideira, quando a massa dança com a carne, com os sucos e com aquela essência toda que não se vê, mas se sente logo à primeira garfada. Não era aquele molho vermelho berrante, de montra. Era denso, ligado, com personalidade. Daqueles que te fazem raspar o prato todo sem te importares com a figura. Foi uma refeição sem espetáculo, mas exatamente o que precisava. Não tentou ser memorável e, por isso mesmo, foi. Pôs-nos de pé, acalmou-nos e disse-nos, sem grandes palavras, que estávamos no sítio certo. A primeira noite em Monopoli acabou como deve ser: estômago feliz e a sensação de que os dias seguintes iam ser bons. 😊 As pessoas fazem o lugar. Não o contrário. Na manhã do dia 31 saí cedo, por um motivo simples: queria apanhar a cidade normal, não a histeria de fim de ano. A mercearia que eu tinha visto chamava-se Numeri Primi e só abriria um pouco mais tarde, por isso, até lá, entrei no Michelangelo – L’arte del gusto, um café pequeno, acolhedor, com pessoas incrivelmente acolhedoras para um 31 de dezembro às 7h30 da manhã. Bebi um café, fiquei a falar ao telefone, tratei da minha vida e, sim, também houve um cigarro. Soube bem. Exatamente aquele começo de dia sem pressa, sem grandes planos. Quando o Numeri Primi abriu, fui para lá naturalmente. E foi aí que, na verdade, começou a diversão a sério. Acho que eu era o primeiro cliente. Naquele segundo percebi logo que era o tipo de loja para mim. Pequena, de bairro, mas com vitrinas cheias e claramente organizadas. Prosciutto de vários tipos, diferenciados pela cura, pancetta arrotolata, mortadella — tudo exposto de forma a veres bem o que estás a comprar. O que eu adoro é que podes levar exatamente quanto quiseres: 100–200 gramas, algumas fatias, sem olhares estranhos. As vendedoras embalavam tudo impecavelmente, fatia sobre fatia, ligeiramente sobrepostas, depois uma camada de película e mais fatias. Um ritual por si só. Fui acrescentando: burratine pequenas, scamorza não fumada, tomates secos em óleo, pesto… a certa altura já nem eu sabia o que estava a pedir e o que vinha a seguir. Quando me perguntaram se queria pão, o meu reflexo de romeno viajado fez-me achar que de certeza não era fresco. Ainda bem que insistiram e me mandaram ao colega deles. O homem explicou-me calmamente que o pão tinha acabado de chegar e que cada tipo era embalado separadamente, em sacos de papel. Evidentemente, saí de lá com uns sete tipos diferentes. 😂 Na caixa, o rapaz ajudou-me a empacotar. Trocámos duas palavras sobre comida e sobre sanduíches feitas à italiana, daquelas que comes tranquilamente em casa, não a correr. No fim, disse-me que eu tinha um pequeno bónus, um voucher válido para 3 de janeiro. Como eu sabia que já não estaria em Monopoli, disse-lhe para dar a outra pessoa. Mesmo atrás de mim estava um conhecido dele. Ofereceu-lho. O homem, ali pelos 55–60 anos, italiano de gema, olhou para mim um segundo a mais. Aquele tipo de segundo em que percebes que vem aí qualquer coisa. Agradeceu-me, desejou-me bom ano e disse, com toda a naturalidade, que tinha de me dar um abraço, para me trazer sorte no novo ano. E deu-me. Sem pressa, sem constrangimento. Depois, como se fosse a coisa mais normal do mundo, contou-me que tinha estado na Roménia, em 1972, com um amigo. Fizeram autostop até ao nosso país. E eu ali, com os sacos na mão, a tentar parecer presente, mas na minha cabeça já corria um filme: a Roménia de 72, dois jovens italianos à beira da estrada, uma história que lhe ficou para a vida. Foi um momento pequeno, mas daqueles que te apanha desprevenido. E que te faz esquecer por completo que és turista. A Itália de que eu gosto não está em pontos turísticos marcados nem em guias. Está exatamente neste tipo de encontros. ☺️ Quando andas sem pressa, a cidade começa a reconhecer-te Com dois sacos já cheios e um estado daqueles, bom, difícil de pôr em palavras, saí da loja e fui em direção a casa. Nada me apressava. Lá fora estava sol, daquele suave, que não encandeia, acalma, e o vento estava muito mais manso do que na noite anterior, quando tinha sido mesmo irritante. Andava devagar, sem um objetivo claro, e tinha aquela sensação estranha de estar num filme italiano antigo, daqueles em que não acontece grande coisa, mas tudo conta. Os passos, a luz, as pessoas que passam por ti. Eu não era turista. Era apenas um homem a andar numa rua de Monopoli. Pelo caminho dei com uma loja clássica de frutas e legumes, daquelas que os italianos têm de duas em duas ruas. Olhei para dentro, disse para mim que talvez parasse noutra altura e segui. Uns passos depois, arrependi-me de não ter entrado. Tinha exatamente o aspeto certo. E eu ia perceber logo a seguir que, em Monopoli, quando sentes esse impulso, normalmente vale a pena voltar atrás. Uns 200 metros adiante encontrei outra. Desta vez, era impossível passar sem parar. Tinha até um carrinho à frente, cheio de caixotes com de tudo — bom sinal logo de início. Chamava-se Bistrot FruttAmore e Tradizione e saltaram-me imediatamente à vista uns dióspiros perfeitos, daqueles que não têm nada a ver com o que se encontra por aí. No ponto, aromáticos, com sabor verdadeiro. Parei. Uma senhora perguntou-me o que eu queria, mas entretanto fui atendido por outro membro da família. Pegou num cesto, pôs os dióspiros, levou-me para dentro em direção à caixa e, antes mesmo de eu chegar a pagar, disse-me tranquilamente que eu podia pôr mais alguma coisa, se quisesse. E, claro, pus mais. Um pimento daqueles enormes, uns tomates, uns rabanetes bonitos… mamma mia. Era como o mercado de Bari, só que tudo espremido numa sala pequena. Vi também um vaso de manjericão e quis levar, mas disseram-me que não dava, não sei porquê. Sem problema. Fui à caixa para fazer as contas e para embalarem. Entretanto aparece um Fabrizio com outro vaso, e o vendedor diz-me, com um sorriso aberto, que é para mim. Ainda tinham lá uns ovos “caseiros”, num cesto com feno e erva, bonitos demais para os deixar ali. Levei-os também. As atrapalhações em italiano e inglês, as risadas, os gestos, todo aquele ambiente de família fizeram-me sentir num filme italiano antigo. E não, não estou a exagerar. Foi mesmo assim que me senti. 😍 Saí de lá ainda mais carregado, mas, de algum modo, levava tudo sem dificuldade. Com quatro sacos, parei no Caffè Roma para comprar uns cafés para a Carmen, porque ela não consegue começar o dia sem isso. Boa atmosfera ali também: eu com os sacos, os italianos a beber café com calma e barulho ao mesmo tempo. “Calma” talvez seja exagero, porque falavam mais do que eu durante as minhas corridas. Com os cafés para levar e os sacos cheios, segui para casa, pelas ruelas brancas do centro histórico, estreitas — umas do tamanho de uma pessoa, outras do tamanho de passar um carro muito otimista. E cheguei. Pequeno-almoço como na casa da avó, mas no sul de Itália De volta a casa, com quatro sacos e aquela sensação boa de ter feito algo como deve ser, pus tudo em cima da mesa. O pequeno-almoço não foi pequeno nem apressado. Foi daqueles de férias, com “sandwichzinhas” feitas com calma, exatamente como os italianos fazem: pão bom, prosciutto em abundância, pancetta, mortadella, burratine rasgadas à mão e pousadas onde calhar. Cozi também uns ovos moles, comidos à colher dentro da chávena, exatamente como eu comia na casa da avó. A Carmen já está habituada ao meu estilo de “ir ao mercado” em Itália, por isso não ficou surpreendida. Pelo contrário, ficou contente. E isso, sinceramente, é uma das pequenas vitórias da manhã. Depois da refeição fomos passear. Sem alvo, sem percurso. É assim que Monopoli se deixa descobrir. As ruelas do centro histórico são brancas, estreitas — algumas mal dão para passar uma pessoa, outras largas o suficiente para te perguntares como é que algum dia passou ali um carro. As casas parecem coladas umas às outras, com portas baixas, varandas pequenas e roupa a secar, e a cada esquina tens a impressão de que já passaste por ali, mesmo que seja a primeira vez. Passámos por igrejas antigas, de fachadas simples, e pelas muralhas que te lembram que esta cidade já foi fortificada. São detalhes que só vês se andares devagar. O caminho levou-nos, naturalmente, ao porto. Aquele tipo de lugar onde Monopoli não se arma em grande coisa, mas deixa-se ver. Barcos a balançar suavemente, água calma, pescadores na sua vida — nada feito para montra. Um porto que vive, não um cenário para fotos. É ali que começas a sentir a cidade não como turista, mas como alguém que simplesmente passeia. Do porto voltámos para o centro, porque no dia 31, antes do almoço, ia acontecer um momento pequeno, mas especial. A chama olímpica de Milano Cortina 2026 passava por Monopoli. Não era chegada de etapa, não era grande espetáculo. Era uma simples passagem, em trânsito, parte do percurso pelas cidades de Itália. E precisamente isso foi a parte bonita. Para quem não sabe, Milano Cortina 2026 é o nome dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, organizados por Itália, e a chama olímpica vai de cidade em cidade como uma espécie de “mensageira”, um símbolo que anuncia que a Olimpíada se aproxima. Juntámo-nos na praça com os locais. Famílias, crianças com bandeirinhas, pessoas que se conheciam e conversavam como num dia normal. Apareceu também o presidente da câmara, com a faixa tricolor, e ficou no meio das pessoas, sem grades, sem delimitações inúteis. Nada rígido, nada forçado. A chama passou depressa. Sem fogo-de-artifício, sem música dramática, sem tentar fazer disto algo maior do que era. O momento em si foi curto. Mas a espera, as conversas, as crianças a olhar curiosas, a sensação de que toda a gente estava ali não “pelo evento”, mas porque é assim que se faz… isso foi a essência. Um gesto simbólico, vivido com naturalidade. Exatamente como Monopoli. 😍 O porto, as ruelas e um momento simbólico vivido com naturalidade Depois dos passeios, do frio, do porto, das ruelas e daquele momento pequeno com a chama olímpica, ficámos com fome. Daquelas a sério. E não fome de “vamos comer qualquer coisa”, mas a fome que pede mesa, cadeira, vinho e tempo. Por isso fomos para La Locanda dei Pescatori, o restaurante a que eu queria ir há muito e que, ironicamente, nunca tinha sido a primeira opção. As duas primeiras escolhas ou estavam fechadas ou não tinham lugar. Então dissemos “pronto” e fizemos reserva aqui. Às vezes é mesmo assim que as coisas têm de acontecer. O caminho até ao restaurante fez parte da refeição. Passámos pelo porto, ao lado de barcos, depois por uma passagem estreita, daquelas que te fazem perguntar se levam a algum lado ou se só te fazem voltar para trás. E depois outra vez por ruelas cada vez mais estreitas, até que, de repente, o lugar aparece. Sem placa berrante, sem pretensões. Exatamente o tipo de restaurante que não sente necessidade de te convencer de nada. Se chegaste até aqui, já estás decidido. Sentámo-nos e olhámos um pouco para o menu, mas não muito. Era óbvio o que íamos pedir. Tagliolini all’astice e pomodorini. Só se pede para duas pessoas, o que faz sentido, porque cada prato vem com meia peça de lavagante a sério, não decorativa. Pedimos também um copo de vinho e dissemos “só isto para começar”, sabendo muito bem que não ia ficar por aí. Em segredo, eu esperava que nos dessem utensílios para o lavagante, porque, por mais que eu goste de me sujar a comer, com as ferramentas certas é mais fácil. Quando uma das empregadas veio e nos pôs uns aventais, tipo babetes grandes de criança, percebi que não ia ser uma refeição elegante. 😁 Depois vieram os utensílios e os pratos. Grandes. Pesados. Com uma meia peça de lavagante enorme em cada um. As pinças já estavam rachadas, portanto não era trabalho forçado, mas ainda assim dava para te envolveres a sério. Eu aprendi, há anos, com uma senhora de Espanha, que no lavagante há uma regra básica: sugas bem. Patas, cantos, partes que muitos ignoram. Podes ter pinças, instrumentos, o que quiseres. No fim, sugar continua a ser lei. 🤣 Seguiu-se uma verdadeira bandalheira. A Carmen não é grande fã de enfiar as mãos até ao cotovelo na comida, por isso a honra ficou para mim — também para a porção dela. E eu não fiz as coisas pela metade. A carne do lavagante era doce, suculenta, e o molho… o molho era coisa séria. Ligado, intenso, com sabor a mar, a crustáceo, a tomates que não gritam, só completam. A massa fresca, daquelas que seguram o molho e não o deixam escapar em vão. Foi aquele tipo de prato que te faz abrandar sem querer. No fim, por recomendação do empregado, pedimos um tiramisù caseiro, honesto, e um sorvete de limão, frio no ponto, muito melhor para a digestão do que qualquer limoncello — que recusei sem arrependimentos. Bebemos os cafés correspondentes, a Carmen um cappuccino, eu o meu amado ristretto, daqueles que parece que só em Itália são feitos exatamente como deve ser. Quando saímos, quisemos reservar também para o dia seguinte, 1 de janeiro. O empregado sorriu e disse-me que para mim há sempre lugar. E, espantosamente, tinha razão. 🤗 Agora, sobre tiramisù, eu tenho uma teoria simples e não negocio: existem três tipos. Um, o tiramisù correto, feito como deve ser, com aquele sabor italiano verdadeiro, que não precisa de efeitos especiais. Dois, o tiramisù errado, reinventado, outra coisa, que pode ser triste, pode ser demasiado doce, pode ser “uma coisa com creme” e pronto. Como na carbonara: ou a fazes como na receita deles, ou chamas-lhe massa com fiambre e queijo e está feito, não discutimos. E três… o tiramisù de outra galáxia: o do Al Vicolo Pizza&Vino, em Catânia, com pistácio. Aquilo não é só bom. Aquilo é indecente. Aquilo é motivo para voltar à Sicília. Tenho a certeza de que aquelas pessoas o inventaram e o resto do mundo só finge que percebeu do que se trata. 1 de janeiro: corrida, fome e a segunda ronda No dia 1 de janeiro, o dia começou de outra forma. Mais lento, mais assente, mas com uma coisa clara: a corrida. Saí, respirei, aproveitei a cidade quase vazia, o silêncio depois do Ano Novo, o mar que parecia mais calmo do que nos dias anteriores. Esta corrida pôs tudo no lugar. A cabeça, a fome, a vontade. E, inevitavelmente, levou-nos outra vez à mesa. À mesma mesa. À La Locanda dei Pescatori, pela segunda vez, sem grandes explicações. Quando um lugar te recebe bem, não o trocas. Desta vez havia fila à entrada. Grupos grandes, mesas ocupadas, burburinho. Percebemos depressa que não valia a pena entrar em pânico. Para duas pessoas arranjou-se lugar. É assim por aqui. Começámos mais “comportados”, com Grigliata della Locanda para a Carmen: polvo, camarões e lula. Grelhado correto, bom, mas sem ser a estrela do dia. Eu pedi Spaghetone vongole, com um molho intenso, profundo, daqueles que não são feitos para ficar bonitos, mas para ficar bons. Tinha também um tártaro de camarão que elevava tudo para um nível sério. Só que… não nos chegou. Depois daquela corrida, a fome era outra. Por isso pedimos mais. O empregado pareceu surpreendido; eu acalmei-o logo: “temos fome, eu fui correr” 😂. Veio Frittura dei Pescatori, uma mistura de mariscos panados, feita como deve ser, sem óleo pesado e sem te cair no estômago como uma pedra. Depois, Cavatelli com funghi, pomodorini e salsiccia. Aquela massa curta e grossa, feita para segurar o molho, com as salsichas italianas daquelas a sério, bem temperadas, com sabor verdadeiro. E, como eu nunca tinha provado, pedimos também gamberoni al sale. Camarões grandes, cozinhados numa crosta de sal, simples, diretos, com sabor limpo, intenso, ligeiramente salgado, no ponto. Nada para esconder. Só bom produto, e pronto. 🤪 O final já era tradição. Tiramisù. Sorvete de limão. Os cafés da praxe. Já não havia nada a provar. Saímos a rebolar, literalmente, mas felizes. Sobremesas nascidas de erros e desejo Mais tarde, num passeio da tarde, daqueles sem plano e sem pressa, voltámos ao Michelangelo – L’arte del gusto. Aquele lugar pequeno que não se impõe, mas chama-te de volta exatamente quando deve. Dois cafés, porque é isso que se bebe ali, e, como já estávamos naquele estado bom de “vamos lá experimentar mais”, decidimos dar-nos ao luxo. Foi assim que chegaram à mesa um Code d’aragosta, um Cannolo siciliano e um Maritozzo. O maritozzo é o tipo de doce que te engana. À primeira colherada não explode nada. Até pensas “meh”. Mas comes outra. E outra. E começas a sentir o aroma da massa, fofa, ligeiramente doce, quase como pão doce, depois as natas em abundância e, no fim, o creme de baunilha a ligar tudo. Não é a sobremesa que te dá um soco. É a sobremesa que te convence devagar, até que, sem te aperceberes, acabas tudo e ainda procuras a última migalha. Aquele tipo de momento pequeno, banal à primeira vista, mas que diz muito sobre esta Itália do dia a dia: não te impressiona logo, mas, se tiveres paciência, agarra-te para sempre. O maritozzo tem uma história antiga ligada ao amor. Em Roma, antigamente, os homens costumavam oferecê-lo às mulheres que estavam a cortejar, sobretudo durante a Quaresma, quando os doces eram poucos. Às vezes, escondiam até um anel lá dentro. Daí a ideia de sobremesa “do amor”: simples por fora, mas generosa por dentro, que não promete muito de início, mas te conquista se lhe deres tempo. Code d’aragosta é aquele tipo de sobremesa que parece mais espetacular do que é e parece mais simples do que parece. Na prática, é um folhado comprido, espiralado, estaladiço por fora, recheado com creme. Muitos confundem-no ou metem-no no mesmo saco da sfogliatella, mas não é exatamente a mesma coisa. Se a sfogliatella é rígida, cheia de camadas finas e te exige um pouco de trabalho, o code d’aragosta é mais suave, mais “de café”, mais amigável. Partes com a mão, sem cerimónias. O folhado estala facilmente, faz sujeira 🤣, quebra-se ao lado do creme — exatamente como deve ser. O creme é fino, não demasiado doce, o suficiente para equilibrar a massa estaladiça. É o tipo de sobremesa que não comes concentrado, mas enquanto conversas, bebes mais um gole de café, olhas em volta, ris de alguma coisa. Não exige atenção total, mas fica-te na cabeça. E parece-me que é aí que está o encanto. Não é a sobremesa “uau” logo de início, não é algo a que faças foto de dez ângulos. É a sobremesa que os italianos comem com um café, sem a tratar como um evento. E é precisamente por isso que é boa. Porque faz parte da vida normal deles, não de um menu pensado para turistas. Exatamente o tipo de coisa que, ao lado de um cannolo siciliano honesto e de um maritozzo que te conquista devagar, te dá aquela sensação de que não estás num city break, mas numa tarde comum, vivida no sítio certo. A sfogliatella nasceu de uma improvisação num convento, quando uma freira, para não deitar fora uma mistura de sêmola, leite e fruta cristalizada que sobrou da refeição, a escondeu numa massa esticada em folhas finas, untadas e dobradas com paciência. Não procurou a perfeição, mas a salvação. Saiu algo estaladiço por fora e macio, perfumado, quase indecente por dentro. Mais tarde, a receita desceu do convento para a cidade, foi refinada, obsessivamente estratificada e chegou às vitrinas de Nápoles. E o code d’aragosta é o seu filho mais atrevido, a versão urbana e hedonista, alongada, recheada com creme, surgida quando os italianos decidiram que as sobremesas não têm de ser apenas respeitadas, mas comidas com vontade, ao café, sem remorsos. Última corrida. Últimas sanduíches. Círculo fechado. No dia 2 de janeiro saí para correr. Sem objetivo, sem tempo, sem drama. Só eu, o mar e a cidade que, ao fim de alguns dias, já não parecia estranha. Ar frio, limpo, silêncio. Aquele tipo de corrida que não é sobre desporto, mas sobre pôr os pensamentos no lugar. Monopoli estava calma, quase vazia, e isso fez-lhe um bem enorme. Corri, parei, olhei, aproveitei. Tudo. De volta ao alojamento, esperava-nos a última pequena magia: as sobras. Todas aquelas coisas compradas com cuidado, todas as fatias bem cortadas, todos os pedaços que sobraram em abundância dos dias anteriores. Pusemos tudo em cima da mesa e fizemos umas sanduíches como raramente se comem. Daquelas divinas. Pão bom, prosciutto, pancetta, queijos, legumes, sem contar, sem calcular. Embalámos tudo bonitinho e levámos connosco. Para o caminho. Para o aeroporto. Para mais tarde. Exatamente o tipo de comida que não se come a correr, mesmo que estejas a correr. E agora vem a ironia bonita, daquelas de que te ris sozinho. No aeroporto, de tudo o que podia acontecer, acabei a comer uma sanduíche de polvo grelhado. Sim, exatamente isso. Típico da Puglia, sem molhos inúteis, sem histórias para vender. Polvo tenro, pão bom, só isso. Aquele sabor limpo que nos tinha acertado logo na primeira noite, quando ainda estávamos cansados da viagem e não sabíamos bem o que nos esperava. Pareceu-me o fecho perfeito. Entrei em Monopoli pelo polvo e saí da mesma forma, como um círculo que se fecha sozinho, sem forçar. Às vezes os melhores finais não se planeiam — acontecem. Em três dias, esta cidade deu-nos muito mais do que comida boa. Deu-nos pessoas que te olham nos olhos, lugares que não têm pressa de ser bonitos e aquela sensação rara de que não és só alguém de passagem com uma mala. Que, por algumas horas, fazes parte do ritmo dela. Monopoli não te atinge logo de início. Não é barulhenta, não é exibicionista. Mas se a deixares em paz, se andares devagar, se te sentares à mesa sem pressa e te perderes em ruelas que parecem esquecidas pelo tempo, começa a colar-se a ti. Talvez por isso eu volte sempre aqui. Não pelos “pontos turísticos”, não para riscar lugares de uma lista. Mas pela forma como a vida corre normalmente. Pelas mercearias pequenas, pelos cafés onde não te perguntam o que queres ser, mas o que queres beber. Pelas pessoas que te contam do nada o que fizeram há 50 anos. A Itália de que eu gosto é esta. E se chegares até aqui, faz-te um favor: larga as listas, esquece os guias, entra onde não há nada grande escrito na porta, fica um pouco mais do que tinhas planeado. Monopoli sabe sozinho o que te mostrar.