🏃♂️ Passados 5 meses, descobri por que quase desisti no Ironman Emilia-Romagna. E foi tudo uma coincidência. 🤭
Há coisas que se aprendem em cursos. Outras, nos livros. E algumas… à mesa, depois da prova, com as pessoas certas.
Depois do Gerar, como de costume, fomos a um restaurante. Nós, a nossa malta do Gerar, Inglourious Basterds. Vemo-nos pouco, mas com regularidade. Com o Bogdan, uma vez por ano, mesmo ali. Com a Gabi e a Valeria, em duas ou três competições por ano, que celebramos sempre da mesma forma: boa comida, muitas histórias, risos e reconstruir o ano aos bocadinhos. ☺️ Aquele tipo de mesa em que não tens pressa para lado nenhum e em que cada um tira da mochila o que viveu, mesmo entre duas provas.
A certa altura, inevitavelmente, vamos parar a Cervia. Ironman Emilia-Romagna. Conto o que contei também aqui: que não fiquei destruído, que não foram as pernas que me travaram, que não era falta de energia, mas uma picada estranha, profunda, do lado direito, que só aparecia quando eu corria. E que piorava se eu comesse ou bebesse alguma coisa. Que a andar ia relativamente bem, mas a corrida dobrava-me como um ponto de interrogação existencial, só que com pernas. Aquela “apendicite emocional”, se leste a minha experiência ou se ainda te lembras. 🤭
E então a Gabi diz uma coisa do género:
“Epá, eu também tive uma coisa muito parecida. E fui a um tipo… fisioterapeuta. Falou-me de um músculo… dos diabos. Como é que se chama… agora não me está a vir à cabeça, mas eu vou perguntar.”
Ficamos todos a olhar para ele.
- Um músculo?
- Sim, daqueles que nem sabes que existem, mas quando se chateiam, dão cabo da tua vida.
Perfeito. Era exatamente o que eu precisava.
Ele não se lembrou do nome na altura. Rimo-nos, mudámos de assunto, comemos, bebemos, fechámos a noite como pessoas normais que se veem pouco e querem espremer tudo daquele tempo.
Uns dias depois, recebo mensagem: “Epá, lembrei-me. O músculo de que eu falava chama-se iliopsoas.”
Bem, que... soa a palavra-passe de Wi‑Fi ou a doença tropical, mas naquele momento várias coisas que me assombravam há meses encaixaram. Mais exatamente, há 5 meses.
Porque aquela dor de Cervia não me incomodou por orgulho. Eu não tenho problema quando as coisas correm mal. Tenho problema quando não percebo porquê. Porque, se não sei porquê, não sei o que fazer da próxima vez. Ou como prevenir. Ou pelo menos poder dizer: “sim, fui eu o culpado”.
Por isso fiz o que qualquer pessoa responsável faria em 2026: perguntei ao meu bom amigo Marcel (ChatGPT). 😂 Contei-lhe a história toda, sem maquilhagens. Perguntei-lhe de forma simples: “É possível que tenha sido isto? E quão possível?”
A resposta acertou-me mais forte do que a dor ao km 32. Resumindo: sim. Muito possível. Quase de manual.
O iliopsoas é o músculo que liga o tronco à perna. É profundo, discreto e trabalha imenso na bicicleta e na corrida. Fica comprimido durante horas na bike, sobretudo com calor, vento, desidratação. E quando terminas e começas a correr, se já está irritado, não te deixa correr normalmente. Deixa-te andar, mas castiga-te se tentares correr. Exatamente o que eu vivi.
Não te deita ao chão como uma cãibra. Não grita. Não te pára de forma brutal. Negocia contigo. E se ainda juntares a isso o facto de que, surpresa, eu já tinha um vírus dentro de mim (Covid, confirmado mais tarde), o quadro fica completo.
Isto não muda nada do que aconteceu em Cervia. Mas muda tudo no modo como eu olho para aquele episódio.
Não foi fraqueza.
Não foi drama.
Não foi “ao 14.º Ironman já não tens a mesma motivação”.
Foi um detalhe pequeno, invisível, que puxou o travão de mão para não rebentar outra coisa. Eu terminei a prova. Torto, encolhido, a negociar cada quilómetro. Mas terminei. E agora, finalmente, sei porquê. 👍
Não te estou a dizer para tomares como certo tudo o que escrevi aqui. Não sou médico (nem o Marcel) e não quero parecer. Mas se corres muito, se fazes triatlo, se alguma vez sentiste uma dor sem nome que aparece só a correr e desaparece a andar, recomendo-te uma única coisa: lê sobre o iliopsoas.
Nem que seja para saberes que ele existe. Nem que seja para saberes com quem estás a negociar da próxima vez. E se te voltar a acontecer… pelo menos para saberes que sim, a culpa foi tua.
Ou não. 😂
Story
O músculo que eu nem sabia que existia
Feb 06, 2026
· 3 min read